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Síndrome do Capitão Gancho

Atualizado: 26 de mar. de 2023


Não sei se você lembra da história, Peter Pan era um menino que não crescia, vivia na terra do nunca e utilizava da imaginação para nunca deixar de ser criança. O cinema fez várias adaptações bem sucedidas sobre esse conto.

Nos últimos anos, um psicólogo utilizou o termo síndrome do Peter Pan para classificar o comportamento de pessoas que tem dificuldade com a maturidade ou que não querem crescer e viver a vida de adulta. Em tempos atuais não acho a ideia ruim, uma vez que as noticias e a previsão de futuro são um pouco indesejáveis, mas é inevitáveis indetificar as pessoas quando determinadas situações acontecem.

Já trabalhei com uma pessoa que não vivia sem maquiagem com medo de mostrar as manchas na pele e demonstrar sua real idade. Também conheci uma pessoa que achava que a vida é uma eterna festa de jovens. Bebidas com energéticos, dancinhas sincronizadas com narguilés e cigarros eletrônicos. Para finalizar, aquela criança mimada da escola cresceu e é sua vizinha, frequenta reuniões de condomínio e sensualiza nas rede sociais. Algum garoto sem capacidades cognitivas trabalha com você e usa a beleza que tem para pedir favores de trabalho absurdo, reconhecendo sua incapacidade de usar computadores, exigindo que tudo seja feito via celulares. Pode ser que tenha alguém assim no bar ou na lanchonete no bairro fazendo as mesmas exigências de quem frequenta as redes de fast food, tornando a experiencia da bodega em um verdadeiro inferno. Vá por mim, eu assisti Peter Pan no videocassete, talvez tenha um motivo para eu tê-lo substituído por uma bela cerveja gelada.


Enquanto escrevo, aprecio mais um gole nesses dias chuvosos e quentes.

Mas o que tem a ver o Capitão Gancho com tudo isso?


Pois bem, tudo isso serviu para introduzir o que realmente quero falar aqui, sobre a minha percepção de uma forma inusitada de falar de emoções. Se você leu Peter Pan, sabe que seu antagonista, o Capitão Gancho, é um ótimo personagem. Nos deu uma infância muito marcante e hilária , mas se você de fato leu o texto sabe que ele, sempre antes de ir para a guerra fazia uma declaração achando que estava chegando sua hora de partir. Sempre acreditava que estava prestes a morrer. No meu caso acontece algo semelhante, eu sempre acho que tudo pode acabar, principalmente em um relacionamento. Baste que ele ganhe rotina. Penso que tem algo errado, que algo mudou. A síndrome do Capitão Gancho, para mim, é perceber qualquer mudança e já achar isso é motivo para terminar. Qualquer discussão ou hiato vira motivo para pensar nisso, agora enquanto escrevo essas palavras penso exatamente nisso. O que me impede de tomar uma decisão que com certeza virá acompanhada de um arrependimento. Esse é outro pensamento que me assombra.

Para evitar que a síndrome do Capitão Gancho tome conta dos meus pensamentos e das minhas atitudes, eu crio metas. Antes de falar o que eu penso a alguém, eu crio a meta de organizar meus livros por autores e assuntos. Antes de eu mandar alguém para o inferno eu crio a meta de zerar as roupas que estão no cesto de roupas sujas. Por fim, antes de terminar uma relação eu crio a meta de esclarecer tudo que tem me magoado, dialogado, escuto tudo com muita atenção, peço desculpas, reconheço meus erros, prometo diminuir a intensidade das ocorrências, sair pra comer, depois ver um filme, dormir agarradinho, levantar pra comprar pão fresco e pensar se realmente era tudo aquilo mesmo. Geralmente funciona muito bem.

Talvez o Peter Pan dentro de mim nunca irá deixar o Capitão Gancho morrer, mas também não lhe dará a vitória assim tão fácil.


Thiago Maroca é professor e produtor cultural. Escreve sobre música, cinema e crônicas sobre tudo que sente e gosta.



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